Às vezes,
nos minguados dias de folga,
sinto vontade de sair do meu "palácio"
de alguns poucos metros quadrados,
na tentativa de trazer uma visão diferente
das calçadas da mesma rua
por onde passo todos os dias,
invadidas pelos carros estacionados,
e pelas barraquinhas dos camelôs,
entulhadas de bugigangas ...
Sinto vontade de olhar por outro prisma
a mesma desordem que vejo projetada
nas costumeiras filas de ônibus,
que nem são filas ...
são simplesmente um amontoado de gente ...
A vontade cresce... cresce... cresce ...
cresce cada vez mais,
até atingir proporções quase incontroláveis.
Mas, quando a vontade está prestes a explodir,
está a ponto de me expulsar porta à fora,
procuro encurtar as rédeas da vontade ...
E vou convencendo a vontade a passar ...
E vou enganando
ou tentando enganar a vontade ...
Eu não entendo esta vontade esquisita de sair.
Sair para quê? Para ver o quê ?
Para fazer o quê? Para falar com quem ?
Para trazer o quê,
senão o meu carregamento costumeiro de desilusões ?
- Que outra impressão eu poderei trazer
se não ultrapassar os limites do cotidiano angustiante ?
- Pergunto-me, mentalmente,
na esperança de convencer a vontade a passar.
E, enquanto assim raciocino,
"dialogo" com a vontade de sair... Sair para quê ?
Para me deparar com os mesmos espetáculos deprimentes ?
Para entrar na multidão dos mendigos
que se atropelam pelas ruas ?
Para enfrentar os assaltantes,
muitos, ainda, longe de perderem a primeira dentição ?
Com isso, vou cautelosamente,
tentando convencer a vontade de sair,
a não me deixar sair,
empregando todos os argumentos de que disponho.
Exausta pela luta que travo com a vontade de sair,
me vejo na iminência de ceder à tentação.
No entanto, já quase vencida pelo cansaço mental,
percebo alegremente que tudo passou,
e rendo graças a Deus
por ter me ajudado a vencer a vontade de sair
e por fazer reinar novamente a paz
no meu "palácio" de alguns poucos metros quadrados.
Maria Nascimento Santos Carvalho