Amor de Primavera...
(Conto a 4 mãos)
Carlos leite Ribeiro e
Maria Nascimento Santos Carvalho
Final de setembro ... A
primavera estava chegando e, com ela, continuava o longo período de chuva, ainda com
resquícios do inverno que castigara a cidade de Coruripe, no Litoral Sul de Alagoas.
Além da tempestade que castigava a cidade, os relâmpagos riscavam a amplidão, e os
trovões fortes e continuados davam a sensação de que estava tudo desabando no
firmamento, trazendo um calor enorme, contrastando com o aspecto do tempo.
Como os relâmpagos sempre me causaram pavor, entrei no
primeiro lugar que me parecia oferecer mais segurança, que, por acaso, era o restaurante
Fênix, que eu costumava freqüentar.
Era o único restaurante considerado classe A que existia
em Coruripe, freqüentado geralmente por clientes de poder aquisitivo mais elevado, vindos
de outras cidades por motivo de negócios, para as festas religiosas ou políticas, por
usineiros e seus familiares e pelos funcionários públicos mais bem remunerados.
Os trovões continuavam cada vez mais fortes e os
relâmpagos espalhavam raios dourados em todas as direções, projetando uma luz intensa
por toda a cidade. Era realmente uma tempestade assustadora.
Eu estava esperando cessar a chuva e, como estivesse se
aproximando a hora do almoço, me sentei à mesa onde costumava ficar, naquele restaurante
sempre cheio e barulhento. Enquanto aguardava a minha refeição, de repente se aproximou
um moço desconhecido e como as demais mesas estivessem ocupadas, pediu licença para
ocupar também aquela mesa.
Eu não costumava compartilhar com estranhos os meus
"solenes" momentos de refeições e detestava quando alguém tentava invadir a
minha privacidade, mas, percebendo que não havia outro lugar desocupado, secamente disse
que ele poderia ficar à vontade (desde que não viesse com conversa fiada, pensei).
Eu fingia que não o estava observando, mas volta-e-meia,
descobria um ou outro detalhe interessante no meu imposto companheiro de mesa, que àquela
altura já saboreava um vinho tinto como se fosse a bebida mais saborosa do mundo.
Olhando de vez em quando, de relance,
percebi que era um rapaz charmoso, muito bem cuidado, e tinha olhos os castanhos e e
amendoados, traços de pessoa fina; enfim, não deixava de ser um homem muito
interessante.
Antes de consultar o cardápio, me perguntou se a comida
daquele restaurante era de boa qualidade, se o meu marido não se incomodaria se soubesse
que a esposa estava à mesa com outro homem, se eu tinha filhos etc.,e quando respondi que
era solteira pareceu-me mais calmo calmo e menos tímido.
De início, eu não me senti à vontade com o rumo que a
que a conversa estava tomando e fiquei nervosa ao perceber que algumas pessoas conhecidas
estavam nos lançando olhares atravessados, imaginando não sei o quê...
Como em cidade pequena quase todas as pessoas se
conhecem, no mínimo estavam censurando a minha
"prosa" forçada com um cavalheiro desconhecido. Contudo, depois de algumas
frases trocadas fiquei mais descontraída e até fiz algumas indagações de somenos
importância.
Nesse ínterim, ele aproveitou para dizer que era aluno de
Engenharia de uma faculdade da Capital, mas trancara a matrícula por incompatibilidade de
horário por estar em novo emprego, que o obrigava a viajar, não lhe sobrando tempo para
continuar , embora já estivesse em mais da metade do curso.
Como se já me conhecesse há meio século, confessou que
mudara de emprego porque trabalhava com sua ex-noiva na mesma empresa em que ela o havia
traído com um gerente chegado recentemente de uma filial do interior e, envergonhado,
pediu desculpas. Num gesto de confiança, embora fosse ele um desconhecido, eu disse que
lamentava profundamente pelo acontecido, que aquilo poderia acontecer com qualquer pessoa
e que a minha história não era muito diferente : comigo havia acontecido coisa pior
porque eu tinha sido "trocada" pela minha melhor "amiga" , o que
tornava a traição muito mais dolorida...
Logo depois de pagar suas despesas, sem comentários,
despediu-se, delicadamente, e foi embora com seu ar de tristeza.
Malgrado eu não quisesse admitir, fiquei muito
decepcionada com aquela despedida apressada, que mais me parecia uma
Fuga Cansei de mendigar felicidade, |
Fiquei ainda alguns minutos a
pensar no que tinha acontecido naquele almoço. Mas a vida tinha de continuar e eu tinha
que voltar ao escritório.
Realmente eu precisava retornar ao trabalho e aceitar a
minha realidade. Em cidade pequena há uma escassez muito grande de cavalheiros
disponíveis e, querendo ou não, eu tinha que continuar a minha vidinha pacata e sem
grandes perspectivas. Mas, mesmo desencantada, fiz uma trova que dizia :
| Às vezes, na despedida, num simples modo de olhar, se diz o que em toda a vida não se pôde revelar ... |
Durante
muitos dias ainda alimentei a secreta esperança de que ele aparecesse, mas em vão.
Continuei levando aquela vida de sempre: casa, emprego, casa e, de vez em quando, ida ao
cinema, e nada mais, porque em cidade pequena não há muita opção de divertimento, mas
confesso que aquele homem não saía da minha cabeça ... Era tão forte a presença dele
no meu pensamento que parecia que eu já o conhecia há muitos anos... Era uma espécie de
"namorado virtual"... " O namorado que era... sem nunca ter sido "...
O tempo foi passando ...
Eu já estava perdendo a esperança que tinha de
reencontrá-lo e cada dia a mais ficava ainda mais decepcionada comigo mesma por perder
tanto tempo esperando por um milagre que, talvez, nunca acontecesse .
Em setembro do ano seguinte, na mesma data e hora, o tempo
estava esplendoroso, com muito sol, temperatura agradável, e eu sentada à mesma mesa do
mesmo restaurante em que, pela primeira e última vez, o tinha encontrado.
Eu pensava em como seria maravilhoso se ele estivesse ali,
mesmo que fosse só para mostrar os seus olhos castanhos com aquela tristeza quase
indecifrável. E, de vez em quando, me perguntava como uma mulher podia trair um homem
como aquele, elegante, de traços finos, cavalheiro, e que, mesmo não sendo um "
bonitão ", tinha uns olhos castanhos tão lindos, tão expressivos, apesar da
tristeza que tentava ofuscar o seu brilho...
De repente, como num toque de magia, ouvi uma voz que me
parecia familiar, olhei de relance, e quase sem acreditar no que via dialoguei
imaginariamente com o meu Destino. E o meu coração pulsou mais forte, quando tive
certeza de que era ele mesmo e pensei então na minha
Espera ... Eu te esperei a minha
vida inteira, |
Ele
dirigiu-se logo para a mesa onde eu estava sentada.
Aproximou-se de mim e, como se quisesse contar um segredo,
foi logo me dizendo : " Não acredito que, um ano depois, você esteja sentada no
mesmo lugar, no mesmo restaurante, e parecendo a mesma "garotinha" assustada que
eu conheci aqui, sem este sorriso lindo estampado no rosto".
E encostando-se em mim, quase ousadamente me perguntou,
tentando parecer engraçadinho :
Por acaso tínhamos marcado alguma comemoração um
ano depois do nosso primeiro encontro ?
E, parecendo velhos amigos, ficamos rindo como duas
crianças que apreciavam as mesmas brincadeiras.
Desta vez nem pediu licença, sentou-se logo e eu senti um
enorme desejo de que ele me conhecesse melhor ... Mas limitou-se a contar que tinha
voltado para o Rio de Janeiro para resolver uns problemas pendentes, mas que nunca me
tinha esquecido.
Eu nem podia dizer que não acreditava, porque parece que
ele estava em todas as coisas bonitas que eu via, e embora eu ainda não soubesse nem o
seu nome, eu não o havia esquecido em momento nenhum, e, para falar a verdade, estava ali
quase chorando de tanta felicidade !
Foi aí que, embora não fizesse muito sentido, porque o
local não era apropriado , eu lhe disse, quase murmurado:
Felicidade Felicidade é feita de
momentos, |
Nesse dia, um
ano depois, tivemos oportunidade de revelar nossos verdadeiros nomes : Douglas e Mariana .
Alguns anos se passaram, mas para nós parece que o tempo
não porque parecemos eternos namorados.
Douglas trabalha numa cidade vizinha, onde moram seus pais,
mas não deixa de voltar para casa todos os dias porque somos muito amigos e não podemos
ficar separados muito tempo pois sentimos muita falta um do outro... Por isso, até hoje
agradecemos a Deus por aquele dia de temporal em que nos conhecemos.
Temos dois filhos, e a nossa vida em comum cada dia se
torna mais bonita... Temos gostos e gênios bem parecidos, e naquilo em que não
combinamos, respeitamos mutuamente as nossas diferenças.
Aqueles olhos castanhos, um tesouro inesgotável de beleza,
me conquistaram e abriram as portas para a nossa felicidade... E dessa felicidade nasceu
um singelo poema, que mostra a importância que o Douglas deu à minha vida ...
Confidências Meu coração era um
"ser" angustiado, |
E assim, de maneira extraordinariamente feliz, termina a história de um grande amor, escrita por Carlos Leite Reibeiro, escritor e jornalista português, domiciiado em Marinha Grande, Portugal, e Maria Nascimento Santos Carvalho, nascida em Coruripe, no Litoral Sul de Alagoas, poetisa, escritora, e advogada, radicada no Rio de Janeiro, desde novembro de 1962.